Há pouco, dissestes o contrário de agora.

               Contraditório, inverso do que foi dito pela mesma pessoa, incoerência no que está falando. Significados aplicáveis em consequência de uma das tolices que criamos: dar ouvido a qualquer um e elevar o falso a sabedoria ou verdade. Tolice é claro, não de quem está na posição de emissor, totalmente nossa, os consumidores de conteúdos produzidos em qualidade inversa a quantidade.

               Ao ouvir alguém defendendo um ponto de vista, principalmente sobre política, economia ou comportamento, faço um tipo de aposta comigo, sobre em quanto tempo a pessoa vai contrariar o que diz. Alguns na frase seguinte, outros na próxima fala em público, outros nem precisa marcar o tempo, são contraditórios por natureza. Um exemplo básico e rápido: âncora de programa de rádio afirma “somos contra qualquer tipo de censura”. No dia seguinte fala a um participante do mesmo programa “tu não podes falar isso no ar”.  –  Ou seja, censurou. –  Mais um exemplo: artista em entrevista longa, tipo podcast, vai soltar em algum momento “não tenho vaidades com o sucesso, sou humilde, tenho amor ao que faço.” Na mesma entrevista vai aparecer algo como “e fazendo aquilo com esforço, muita dificuldade e ninguém estava curtindo, não decolava.” – Nitidamente contraditório, zero humildade e total vaidade.

               Vou deixar de lado os produtos de marketing que nós passamos a chamar de políticos. Seria necessário terabytes para relatar só um pouquinho das contradições que estes parasitas pronunciam segundo a segundo. Não estou falando em mudar de opinião, que é algo nobre do ser humano pensante. O foco é a percepção das contradições e da cara-de-pau dos que arrebanham milhares ou milhões de “seguidores”. Este contraditório também é diferente do termo jurídico, onde os atores tem experiência e preparo para identificar. Para nós, pessoas de tempo escasso e distrações abundantes, a incoerência pode passar despercebida. Inclusive posso acreditar que poucos conseguem identificar, pelas mais diversas razões possíveis.

               Estamos recebendo cada vez mais conteúdos sobre assuntos variados e não há qualquer exigência de qualificação aos criadores. Sei que não existe forma de controlar e pode ser inadequado tentar alguma barreira que ao mesmo nos proteja e melhore o nível destes conteúdos. Exemplos de pessoas “com microfone” para difundir tolices tenho muitos e de nada adianta citá-los, dificilmente chegará até eles algo com força suficiente para convencê-los que a fala de hoje contradiz a de ontem. Posso imaginar que o efeito prático seria uma terceira versão para justificar as anteriores, ainda mais contraditória.

               E qual a forma de evitar estas tolices? Por hora somente filtrando a origem do que vamos considerar conhecimento. Também aumentando a seletividade do que ouvir, em quem acreditar. Tarefa nada fácil! Ainda mais enquanto o povo anda carente de heróis. Sei que é muita tolice desejar a perfeição, mas, lembre-se: tem gente ganhando muito dinheiro e simplesmente te enganando.

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