Algo muito interessante, sobre a qualidade de vida, está acontecendo aos poucos. Não é de fácil percepção para a maioria das pessoas vivendo em ambiente urbanizado, considerando a influência desta numa resistência involuntária, sem qualquer possibilidade de culpar quem nela está, por remar contra a corrente ou desacreditar. Não há como exigir a percepção quando a mudança não está escrita, normatizada e não é formal. Por se mostrar primeiro a quem não participa do fluxo considerado normal, será mais uma das transições, das evoluções, que deixará sem ação quem precisa dos padrões existentes para explicar, escrever sobre, classificar e dar publicidade a ela. Antes que se dê um nome, que se tenha um padrão nítido, datas e fatos comprovados, antes que se possa compor uma explicação científica, já terá ocorrido e estará naturalmente funcionando.
Afirmo e esclareço que não é um exercício de adivinhação ou futurologia, é uma evolução que não depende da nossa adjetivação ou rotulagem. Ao citar outras evoluções e usar algumas semelhanças, estou me referindo aos momentos que do início à maturação, somente depois que o tempo histórico permitiu, houve melhor entendimento. Sem considerar peso ou proporções, faço a comparação com a origem do ser humano, onde a resposta das perguntas quando, como, onde, é simplesmente não sabemos. Há fortes evidências, há sinais. Não há certezas nem exatidão. O que realmente importa e se vê, é a existência de uma espécie, agora com características identificadas e diferenciadas das outras espécies. Uma evolução que foi acontecendo, naturalmente. A relevância pode ser diferente, a dinâmica que é comparável e dependendo do ponto de vista, parecida.
Todo este início, poderia ser mais longo, mais detalhado. Faço a opção por avançar no tema, como reflexo dos tempos atuais. Sendo assim, o objeto aqui é a evolução em andamento, para o retorno através do silenciamento, ao ambiente mais adequado aos limites da sanidade do corpo e mente que nós, os seres humanos, naturalmente estamos preparados a suportar. Alguém ao ler a frase anterior, pode sugerir uma contradição entre evolução e retorno. No caso da nossa transição atual, não é contraditório que um regresso seja uma evolução. Lembre-se da ausência de encaixe do que está se formando, com os padrões e com a forma de explicar, entender e registrar que estamos praticando. Perceba a seguir, o ponto de vista de quem não está no fluxo considerado normal do meio urbano e as correlações que projetam positivamente a evolução citada.
Em um feriado nacional, milhares de pessoas deixam suas casas para viajar, formando uma migração temporária. Quem fica, logo, não participando do fluxo normal, sem muito esforço percebe coisas muito interessantes que o silenciar do ambiente acaba revelando, muito além de pássaros e sons da natureza. Ao caminhar em um bairro que normalmente teria constante passagem de carros, motos, caminhões, que na rotina do local contribuem ou são a fonte de movimentação para máquinas, construções, comércios e inúmeras outras atividades barulhentas pela própria essência, ouço uma conversa entre apenas duas pessoas, mostrando muito sobre a evolução em curso. Uma senhora, com idade entre 60 e 70 anos (considerando pela aparência física e que não seja fumante), fala em um tom de voz exageradamente alto, sobre a poda dos arbustos e a chuva que parece se aproximar. O detalhe é que a outra pessoa conversando com ela, estava a menos de 2 metros de distância e eu a pelo menos 30, ouvindo nitidamente. É uma cena “boba”, porém, com muitas informações implícitas e ao mesmo tempo reveladoras. Começando pelas obviedades, com a ausência dos veículos e da atividade dos que migraram temporariamente, foi possível a minha audição nítida de todas as palavras daquela senhora, mesmo estando relativamente distante. Aqui registrado o primeiro efeito sutil do silenciamento. E a pergunta principal neste caso, sem ironia, foi por que ela estava falando tão alto? Eis o que também sinaliza evolução. Esta senhora viveu até o momento da conversa, SEMPRE em ambiente ruidoso. Posso afirmar sem risco de erro, que o ambiente em que ela nasceu, cresceu e se desenvolveu, foi de extremo ruído. Ao retornar a corrente migratória temporária, a mesma cena se ocorrer será muito alterada, sendo impossível ouvir aquela voz a mesma distância, justificando assim o tom (nível) a que aquela senhora foi obrigada a desenvolver para falar e ser ouvida no cotidiano, considerando inclusive danos irreversíveis (mesmo que em alguns casos remediáveis) ao sistema auditivo natural. Este é mais um dos fatores que sinalizam a evolução, não diretamente, não nitidamente e sim influenciando no resultado que se aproxima. Mudamos o tom de voz, para adaptação ao ambiente de alto ruído. Vamos evoluir, voltando ao tom normal, naturalmente adaptado ao que se entende como equilibrado.
Os pontos que podemos ligar na construção do ambiente em que uma pessoa desenvolve tom de voz exagerado, aparentemente não estavam no plano inicial e não faziam parte das intenções de quem atuou para o que a época era um avanço maravilhoso. Quando em uma rápida e superficial revisão histórica, podemos lembrar que para cultivar um campo de arroz, trigo, frutas ou raízes, dezenas e até centenas de pessoas se uniam em um trabalho dito manual, encontramos registros e relatos indicando que havia momentos de cantoria e o conjunto de vozes se espalhava pelo campo, formando uma cena de filme, romantizando o esforço, mas, registrando que o ambiente tinha um detalhe importante: era silencioso. Avançamos o tempo e vemos o mesmo campo com máquinas no lugar das pessoas. Isso foi considerado evolução, ganhamos muito tempo, a quantidade produzida aumentou significativamente e gerou entusiastas, fãs desta cena que vivem a centenas de quilômetros dali, sem nunca ter visto e ouvido presencialmente qual o resultado ao ambiente como um todo. Ouvido é o ponto, no lugar da suave cantoria, o forte e alto som do motor, da movimentação das máquinas e equipamentos. Maravilhas do ponto de vista da engenharia, do desafio ao cérebro humano na evolução de tecnologias. Por consequência não planejada, sem que possa ser negado, resultou nos berros da senhora conversando no feriado. Mesmo que em tua mente tenha influência e relação de outras causas, como possíveis fatores genéticos, a possível nunca passagem daquela senhora por ambiente com máquinas e equipamentos ruidosos, possível desenvolvimento de alguma patologia que tenha influenciado na audição, não há como negar que o exemplo é de uma atividade comum, com cenário igual ao de outras incontáveis, mudando os elementos sem mudar o resultado. Mesmo que seja uma reação do corpo ao ambiente onde está a moradia daquela senhora, podemos confirmar que é de alto ruído e constante poluição sonora. Há décadas.
Aos poucos estamos evoluindo para o silenciamento das coisas, inclusive no meio urbano. Essa maravilhosa movimentação não formal, revela-se não somente nos dias de migração temporária e em pontos específicos das grandes cidades. Os equipamentos, máquinas, veículos e até pessoas, estão em fase de transição, da era barulhenta a era do equilíbrio, do silenciamento. Podemos comparar muitos fatores e até apontar relação de causa e consequência. Nítidos ou implícitos. Podemos começar pelo inegável fascínio, a excitação romantizada, promovida, vendida e incentivada ao ouvir “o ronco” dos motores a combustão. Há quem tenha prazer equivalente ou superior ao sexual, ao se aproximar ou ter contato sonoro com esse tipo de motores. Muito disso explicado pelo conjunto de filmes, propagandas, músicas, glamour e tudo que compôs o marketing bem-sucedido, que elevou o dito a algo transcendental. Lentamente, porém, visível, “o ronco” de um motor a explosão em motos, carros, caminhões, máquinas e equipamentos, foi sendo silenciado, seja por regras mais rígidas ou por opções (e evoluções) da engenharia. Começa a ser comum encontrar pessoas que agora sentem repulsa ao ouvir o tal “ronco”, começa a ter um xingamento quando uma conversa é interrompida pelo som de uma moto, carro, caminhão, ônibus, helicóptero. Nota-se que aos poucos, está se tornando antiquado, “brega”, desagradável, quem opta por ter os antigos “esportivos”, aqueles tanto fascinavam ao passar com uma espécie de corneta ampliando o som das explosões do motor (escape). Há quem tenha a mãe homenageada. Fácil encontrar quem considera isso “coisa de pobre”.
Em outras situações, com mesmo contexto de formação do ambiente, onde não houve preocupação ou precaução quanto aos ruídos gerados pelas atividades, novamente a evolução para o silenciamento aparece, em alguns casos mais lentamente, em outros já é realidade. Uma lavadora de alta pressão ou liquidificador feitos há 30 anos, produzidos como a engenharia da época entendia ser normal e com os recursos materiais existentes, seguiram úteis e com os mesmos processos de produção por décadas. Agora, esbarram num desejo do consumidor para a compra destes produtos: menos ruído. Casas com vedações em portas e janelas, construídas com materiais diferentes dos utilizados no passado recente, obedecem a uma demanda ao mesmo tempo em que apresentam o benefício do silenciamento, como argumento de vendas. Máquinas e equipamentos industriais, equipados agora com carenagens ou instalados em salas próprias, recebem dos engenheiros um carinho especial, quando parte relevante do projeto é a redução ou eliminação do ruído. Todo esse conjunto citado, está refletindo na evolução para o silenciamento do nosso ambiente, seja urbano ou rural. Aos poucos, mesmo sem a migração temporária, os descendentes ou convivas daquela senhora que falava com a voz em tom alto, naturalmente já demonstram que não precisa mais berrar para uma simples conversa. Lembro que esta percepção não é fácil a quem por motivos diversos, ainda não mudou seus hábitos, suas preferências e escolhas. Estes podem estar no grupo da resistência, dos xingados, sem que tenham notado.
Mais um ponto com relação de causa e efeito, contribuindo para a maravilhosa evolução ao silenciamento. Ao que tudo indica, estamos em tendência de redução da população de seres humanos. Não é novidade uma notícia ou estudo sobre a estagnação do crescimento populacional, com casos registrados de decréscimo. Também ocorre de forma lenta e gradativa, mas, está acontecendo. Menos pessoas, menos demanda por objetos ou ações ruidosas. Há evidências que projetam um cenário onde alguém possa anunciar algo como: “criamos uma tecnologia capaz de produzir milhões de toneladas de arroz em minutos”. Tendo como reação de quem ouve, algo semelhante a perguntar para que servirá ou por que foi gasto tempo e recursos com isso. Em igual condição, prédios ao estilo arranha-céu, com milhares de unidades de moradia, sem moradores para ocupá-los. Este efeito causa pânico em um grupo de pessoas, gera medidas governamentais de incentivo financeiro a casais para ter filhos, traz argumentos pavorosos sobre as consequências para os fundos de previdência social, desastre na economia e outras tragédias (para eles). Outro grupo, que esteja percebendo a evolução como positiva, ainda não declara formalmente que entendeu o silenciamento que será gerado, naturalmente a partir do que gera o temor aos que não são capazes de imaginar a vida de outra forma, que não seja igual a de hoje.
Engana-se e muito, quem projetar morbidade, depressão, tristeza e mundo sem vida. A evolução do silenciamento, ao contrário desta visão negativa, vai nos trazer de volta o equilíbrio entre o que podemos suportar, o que o meio ambiente pode suportar e a vida alegre, festiva. Não há qualquer evidência de que as crianças deixarão de correr, pular, gargalhar e gerar uma algazarra ao formar um pequeno grupo delas. Não há sinais de que vamos deixar de nos reunir com familiares, amigos ou desconhecidos, para nos alegrar ou celebrar as coisas da vida. Da mesma forma, não deixaremos de criar, ouvir e reproduzir músicas e arte. Ao contrário do que possa ser projetado pela resistência (voluntária ou induzida), o silenciamento do ambiente não vai tirar dos seres humanos a capacidade de sentir prazer, de se desafiar e evoluir ainda mais. Vamos continuar falando, rindo, cantando e até assobiando. Vamos continuar fazendo barulho ao expelir gases e nosso corpo continuará a produzir o som parecido com “txibum” ao mergulhar em uma piscina, lago ou rio. Será normal caminhar ouvindo o som dos próprios passos e cumprimentar as pessoas, conversar sem necessidade de gritar, mesmo com a passagem de um veículo ou próximo a um equipamento qualquer. E, a maior vantagem disso, é que não vamos estragar nada do nosso meio ambiente, para viver bem e em harmonia. Engana-se também quem argumentar com semelhança ao retrocesso, retorno a antiguidade ou período medieval. A tecnologia continuará evoluindo e sendo útil, terá apenas um complemento, a percepção do silenciamento.
Em quanto tempo esta evolução atingirá seu ápice e estabilização, é impossível prever. Isso não precisamos saber, pouco importa. E se por acaso não pareça que está acontecendo aí onde tu estás, apenas observe, compare e a resposta virá, naturalmente.
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Algumas observações para melhor entendimento:
– A citação ao fluxo urbano considerado normal. É uma referência ao padrão acelerado, uso de veículos para mobilidade, escala de tempo para dar conta de deslocamentos e tarefas de um período, seja para trabalho, estudo ou lazer. Uma pessoa para ser considerada como parte deste fluxo, basta que tenha em média ao menos um compromisso diário, fora da sua casa. Considera-se normal ter um carro ou usar outros veículos como moto, ciclomotor, caminhão, ônibus, ter relações sociais ou religiosas, ser economicamente ativa.
– Migração temporária é uma referência a feriados prolongados, períodos de férias escolares em cidades próximas ao litoral e o período entre 24 de dezembro e 05 de janeiro.
– Ambiente de extremo ruído, não é apenas o ambiente industrial ou com a presença de máquinas e equipamentos barulhentos. Pode ser considerado extremo ruido, um ambiente de concentração de pessoas em pequeno espaço, onde para falar e ser ouvido, seja necessário aumentar muito o tom de voz.
– Sobre correção nas projeções e curva de queda da população de humanos, a FONTE: World Population Prospects 2024, Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas (UN DESA), Key Messages da revisão de 2024. “Atualmente, cerca de 63 países e áreas (que representam 28% da população mundial) já atingiram o pico populacional e agora estão em declínio.”