Agente Sua e Agente Soa – É de doer os ouvidos. #1

          Agente Sua, no calor da alta temporada de verão, estava no deck de um restaurante com um refrescante suco de abacaxi e hortelã, aguardando o horário agendado. Não demonstrava ansiedade nem pressa, algo natural que completava a sua elegância de fácil percepção. Ao contrário, Agente Soa nitidamente mostrando a qual nível pertencia, com pura ansiedade, agitação, inquietude, em um lugar com muita gente ao redor, um terraço aberto à visitação turística. Para Agente Sua, um sinal discreto como um bip, apenas sinalizando a hora e Agente Soa com um alarme destes para despertar até quem comeu feijoada no almoço.

— A conexão está no melhor sinal, vou considerar que após ouvir as instruções desta mensagem, tenhamos início a uma nova história de sucesso da nossa agência. A partir de hoje, está formada com vocês a dupla de trabalho que alimentará com inteligência o nosso sistema. Vocês receberão missões ultra especiais, a partir daqui, do comando central. Agente Sua, por estar conosco a mais tempo, será líder e canal de contato da dupla. Agente Soa, sabemos que cumpriu a formação de boas-vindas, então siga as regras em concordância e correta aplicação, respeitando quem o ensinou e os manuais. Agentes, estejam em atenção máxima, sejam ágeis e coloquem em prática o treinamento. Todas as missões serão encaminhadas neste formato. Se houver alguma dúvida este é o momento de apresentá-la. Identifique-se e exponha.

— Eu, eu, Agente Soa, peço permissão. – Parecia estar berrando, em tom muito acima do normal, gerando incômodo e despertando a atenção das outras pessoas no local.
— Não é necessário falar tão alto Agente Soa. Siga, qual a dúvida?
— Como vou identificar a outra pessoa da dupla?
— Agente Soa, não é correto este jeito de falar, chega a doer nossos ouvidos. Peço que verifique a forma adequada da expressão e saiba que a resposta consta na instrução de acolhida acessada por ti há vinte minutos.
— Sim, sei, foi. É… ãããã… Não lembro exatamente. É possível refrescar minha memória? Sabe como é, muitas tarefas, ãããã, a cabeça ó, uma loucura, correria total.
— Agente Soa, nosso comando central não repete instruções contidas nos manuais, elas devem ser lidas, entendidas e fixadas no ato. Em exceção haverá uma resposta presencial a dúvida apresentada. Permaneça neste local exato ao tempo necessário até que ouça tua senha de acesso ao sistema. Alguma outra dúvida agentes conectados?

           Após um breve silencio, a conexão múltipla foi convertida em conversa de um para um.

— Agente Sua aguardando instruções.
— Muito bem, Agente Sua, percebemos que não será fácil a sequência com Agente Soa. Sabemos que a diferença entre vocês é fruto de tolice e com origem incerta, mas, precisamos que seja superada. A convivência entre vocês deve ser harmoniosa, a função de cada um é bem definida, fácil de aplicar.
— Ok. Será. Soa merece nosso respeito, principalmente separando Agente do Soa, mas, registro que Agente Soa é de doer os ouvidos!
— Agente Sua, no calor que está agora, vamos optar pela objetividade. A primeira missão será muito simples e um teste para avaliarmos a sequência, lembrando que a dupla não é escolha aleatória, há regras e o respeito a elas demonstra o grau de inteligência e outras coisas mais. A missão é: vá ao terraço do prédio logo a sua frente, ao entrar perceberás uma pessoa ao lado piano, Agente Soa. Fale discretamente: no calor. Apresente-se, faça as boas-vindas novamente, esclareça as dúvidas e apresente o relatório. Agência de inteligência desconectando em três segundos.

          Agente Sua, com esforço físico e mental, foi ao local informado, entrou e sentiu o ambiente climatizado, de temperatura muito mais agradável. Identificou o piano e a pessoa ao lado. “Meu Deus! Vou precisar de muita paciência!”. Aproximou-se e falou em voz baixa:

— No calor.
— Agente Sua?? No calor? É minha senha! Incrível, isso funciona mesmo! Show!
— Não precisa falar tão alto assim Agente Soa, discretamente, é como agimos em público. Precisamos seguir os manuais, Agente Soa. Tão alto e escandalosamente como uma corneta, pode nos atrapalhar nas próximas missões.
— Pode sim, entendi, ããã, vou falar baixinho Agente Sua, no calor ou frio. – Disse apontando para o chão e para o lado de fora, em seguida piscou o olho direito sinalizando uma piadinha, sem nenhuma graça é claro, com a intenção de sugerir movimentação.

          A conversa foi breve e objetiva, encerrada com falsos sorrisos e sem formalidades. Agente Sua apressando o passo, retornou ao seu confortável local de trabalho.

          “Agente Soa, isso não está certo. Quem inventou isso? E tinha que ser comigo? Dai-me forças! Dai-me paciência!” – Enquanto preparava o relatório, Agente Sua pensava e conversava com a própria consciência.

Relatório da primeira missão:

“Primeira missão completada. Realizado o contato presencial e o repasse das instruções iniciais conforme regras da agência. Aparentemente, Agente Soa está ciente de como agir e se portar. Considerando a forma expansiva de ser, a voz sempre em altura exagerada, o excesso de simpatia, faço a sugestão de revisão nos critérios de acesso. Tenho dúvidas se houve aplicação das provas e testes nesta escolha. Entre inconformidades, Agente Soa é de doer aos ouvidos.”