Malcriados

          Malcriado foi durante muito tempo o jeito de se referir a uma criança “sem modos”, de “boca suja” ou que cometia pequenas maldades, fazia o que era considerado ruim para uma criança fazer. Sem a intenção de julgar certo ou errado, apenas registrando, os malcriados recebiam diferentes tipos de “corretivos”, desde uns tapas, chineladas até castigos, como não sair de casa para brincar com os amigos, ter que ler alguma coisa ou ficar sem doces, sempre algo punitivo e a critério da criatividade dos parentes. Com a evolução da criação dos filhos, com o inegável melhor acesso a escolas e até terapias, recebemos na sociedade crianças, jovens e adultos mais qualificados e bem-criados. A dúvida é o que fazer com as exceções.

          Para ilustrar o contexto, em dois casos reais temos exemplos bem claros do que são os malcriados atuais e como estão distantes do que era desejado em evolução. O primeiro:  um jovem de aparência com não mais que trinta anos, pilotando moto dessas chamadas de esportivas, é obrigado a parar em um semáforo e permanece acelerando mesmo sem marcha engrenada. Era o primeiro da fica e ao sinal verde, dispara com toda potência, atingindo alta velocidade. Cem metros a frente, um veículo estava atravessando a rua para entrar em um posto de combustíveis. Nem mesmo com superpoderes, o motorista do carro poderia ver a moto a distância e no susto consegue ao menos desviar um pouco. O tosco piloto, trava roda e desliza pela lateral do carro, arrancando espelho e riscando a lataria. Escapa da morte, graças a habilidade do motorista do carro. Mas, ao conseguir parar, faz a volta e vai discutir com o motorista do carro. As imagens das câmeras no local, apontam claramente que a velocidade da moto era alta demais, mesmo assim, o sujeito não foi capaz de entender seu erro, as consequências do risco assumido, a culpa, nada, na cabeça dele, estaria cem por cento certo e foi o carro que o atrapalhou.

          O segundo: em um desses apartamentos populares, de um quarto sala e cozinha conjugados, um casal muito jovem, ainda sem completar vinte e cinco anos, mora com um filho que se aproxima dos dois anos, mas, não fala, está começando com papá ou mamá e sua comunicação é através de gritos agudos e resmungos em dialeto próprio das crianças nesta fase. O casal acha normal chegar após vinte e três horas e com a criança “acesa”, acha normal jogar bola no apartamento, brincar e deixar o menino ser feliz com seus gritos e resmungos. Nestes apartamentos, a parede que faz a divisão entre unidades é meramente simbólica, quem estiver do outro lado, em horário de silêncio, vai ouvir o teor de conversas, a duração e o tom da flatulência, o que estiver na televisão e tudo mais relativo a sons vindos do vizinho, incluindo o momento da safadeza, do aiaiaiai uiuiuiui. No apartamento ao lado do casal, tenta dormir um trabalhador que precisa despertar às seis horas do dia seguinte. Perdendo a paciência, este resolve sinalizar o abuso ao casal, batendo três vezes na parede. Para surpresa, o jovem papai e esposo, também bate na parede, xingando e em alto e bom som, resolve atribuir a reclamação do trabalhador com frases estúpidas, supondo que a reclamação seria por este não ter bebido ou ter algum distúrbio mental. O pseudomachinho, escapa de levar uma sova, pela sorte da desistência do agredido mesmo já estando no corredor. Sorte e ajudinha de outro vizinho, que só por ter aberto a porta naquele momento, ajudou a motivar a desistência. Não escapou da parte jurídica, não havia síndico no prédio, mas, houve registros da prática recorrente do casal e seu ainda bebê, em áudios, vídeos e boletim de ocorrência. Na cabeça do malcriado, mesmo passando das vinte e três horas, mesmo havendo regras claras de convivência e normas de condomínios, ele achou normal reagir, xingar, ofender, retrucar. Para ele nada de errado em além de faltar com respeito ao básico, aumentar o conflito com atitude delinquente.

          Nos dois casos, a idade dos envolvidos é da faixa que deveria apresentar os frutos da evolução antes citada na criação dos filhos. Se houve falhas ou se em outros casos semelhantes vamos considerar como exceções, de qualquer modo é tolice simplesmente fechar os olhos, deixar nas mãos da natureza a reabilitação ou o diferente destino com o passar do tempo. As consequências são bem maiores do que danos materiais em um carro ou indenizações por injúria, difamação, agressões a honra e moral. Basta um número relativamente pequeno destas supostas exceções, para um estrago relativamente grande no convívio familiar, social, corporativo e até político.

          Era desejado que ao chegar ao mundo multipolar, com a maioria das pessoas sendo obrigadas a conviver em aglomerações urbanas, chegasse junto à forma evoluída do respeito e da melhor criação. Vale lembrar da metáfora da laranja, onde basta uma para estragar a caixa com mais de cem. No caso das laranjas, ao identificar e remover a podre, salvamos o resto da caixa. E no caso das exceções, dos novos formatos de malcriados, além da coragem de apontar que o jeito moderno da criação, não está passando no teste, é necessária uma solução que nos permita corrigir a rota, com efeito não muito diferente da criatividade que os pais das gerações anteriores tinham, para fazer seus filhos entenderem o erro, assumir as consequências, obedecer às regras e se tornar bem educadinhos.

          É mais um assunto destes desprezados, tidos como irrelevantes ou mesmo ignorados por falta de aderência quando foi posto. A tolice do isso não é comigo, da avaliação que é assunto chato, do descarte na ordem das prioridades, vai trazer um cenário curioso. Ao primeiro conflito gerado por um malcriado, uma das exceções aos que evoluíram, mesmo sem ter qualquer contato com este texto, quem estiver envolvido, vai certamente perceber que não adianta combater o efeito sem dar atenção a causa. Pouco adianta reclamar do gosto do suco comprado, quando ignoramos que a laranja passou pelo manejo pós-colheita e industrialização, causando o estrago no tonel inteiro e sendo percebida somente quando já era tarde demais.

          Se vamos de a Cesar o que é de Cesar, inclusive os problemas, se vamos de quem pariu Matheus que o embale, de ema ema cada um com seus problemas (com L ou R no meio da palavra) ou se vamos de não foi essa criação que te dei, seremos a civilização mais carregada de tolices e sujeita a selvageria normalizada. Nosso suco para ficar bem bom, depende de como o fruto sairá da árvore, da atenção que terá no manejo, da qualificação que receberá na industrialização e de como foi preparado antes do contato com o paladar. O deixa isso para lá, não demora e atingirá o de cá.